sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

                                                      

                                                        SÓ QUERO UM POUCO DE TI
                                               
                                                         Sinto-me rei
                                                         no meu trono de ilusões           
                                                         dono do que é teu,
                                                         além de ti.

                                                        Dono sem dona,
                                                        sem Senhora,
                                                        Mas...senhora dos meus sonhos,
                                                        e dos meus desejos vãos!
                                                        porque és assim,
                                                      - para mim, vida?
                                                       porque não trazes
                                                       os sorrisos de Sol ?
                                                       Com que embriagas os mortais?
                                                       Com que enlouqueces a própria loucura?
                                                       Com que deslumbras as  sombras do dia?
                                                       Estrelas sem Luz,
                                                      prendo-as em minhas mãos,
                                                      deixo-as cair...

                                                      Sem lumes, 
                                                                    sem fadigas !
                                                     Jardins sem flores,
                                                     como se tudo fosse
                                                                   um desfolhar de rosas,
                                                                            sem pétalas...

                                                   Flores ?!
                                                   Onde estão elas ?
                                                   Sempre, sempre ausentes.
                                                   Oh! Vida !
                                                   mata-me a vida
                                                   e vem morrer a meu lado :
                                                  mas...
                                                  Deixa-me ter um amanhã.
                                                  Um amanhã ?
                                                  Eu nunca tive presente.
                                                  Eu nunca tive passado !




                                                                                                 J.Clarel
                                                                                                 Natal de 2016
                                                                       

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

                                            AGORA,
                                                    NA QUADRA DO AMOR...
                                                   
Desabafos
antigos

   
     Debruçado numa das janelas, de grandes vidros, dum enorme e inóspito corredor  que mais faz lembrar os antigos claustros daqueles austeros conventos para onde se ia com o coração repleto de devoção e em busca de sofrimento, tento adivinhar a paisagem escondida pela frondosa ramaria das verdes e altaneiras árvores deste jardim secular, entretenho-me divertidamente a observar a guerreia entre os azougados pardalitos com os seus ancestrais inimigos urbanos  -  os arrogantes e poderosos pombos  -  a ver qual deles consegue o maior naco de pão daqueles pedaços que eu me vou entretendo a lançar cá de cima. Lei natural da vida ;  come-se para não ser comido. Os maiores tentam roubar o naco aos mais fracos :  - primeiro eu, depois---se sobrar...
  Deus assim fez o Mundo, e sempre assim será até à consumação dos séculos. Mas graças a  esse mesmo Deus há exceções lindas de registar.
   Temos lido relatos espantosamente comoventes sobre atitudes descobertas em certos cãezinhos que abandonados pelos donos ou porque estes repentinamente deixaram o nosso  Mundo mercê de morte súbita. Ou porque o coração  empedernido duns outros, não sentiram pena ou remorsos. teimaram em não abandonar o local onde os deixaram morrendo de fome e frio, se  a tanto forem obrigados, como que a quererem deixarem ficar a afirmação duma inabalável dedicação a quem já foi o seu companheiro de todos os momentos e como tal, certamente...vai voltar breve em sua busca.
   Mais comovente ainda aqueles extraordinário caso do cãozinho que foi mais longe na sua dedicação ao dono  : - após a morte deste, acompanhou à distância o seu funeral  e, tranquila e discretamente, foi-se deitar sobre a sua sepultura acabando também por morrer da tal fome e  do impiedoso frio.
    Provavelmente muitos outros mais exemplos ocorrem por muitos sítios que não chegam ao nosso  conhecimento.                                                                                                                      sã
   É Natal, a chamada quadra do amor porque pelo seu significado  as pessoas chamados a reflectir e a dar um pouco de si ao seu semelhante. Pelo menos era o que devia acontecer sempre e espontaneamente...  só que, infelizmente,  é também uma quadra de mentiras e hipocrisia em que a maioria dobra a servis para  - desejar boas festas a V.Exa.  e família -  oferecer uma prendasita, muitas vezes sem qualquer préstimo, apenas para ficar bem visto.    Trocam-se beijos e carícias e no resto do ano vivem como se fossem estranhos entre-si.
   Ofereceu-se um pacote de arroz ou açúcar à  organização, julgando assim ter-se conquistado  um lugar no céu e durante o resto do ano vira-se a cara para não encarar a miséria que por todo o lado grassa.
   E afinal pouco seria preciso para que a humanidade sentisse mais o seu semelhante e lhe fosse mais dedicado
   Bastava seguir  o exemplo  do humilde cãozinho...
 

sábado, 3 de dezembro de 2016

                                            OS LARES DA TERCEIRA IDADE,
                                                   E OS OLHOS CEGOS DA JUSTIÇA...

Desabafos
antigos.

                  Não duvido que isso de justiça é só para constar  nos dicionários porque, de resto...
  Aliás, até pelo seu símbolo   -  uma balança com dois pratos  ( sendo que um deles está muito mais baixo que o seu par ) se verifica que há sempre dois pesos e duas medidas...
  Que o  sr. fulano, o sr. sicrano ou o sr.beltrano  se abotoem com milhões é uma circunstância a que já nos vamos habituando,  ( uma praga made in  pós 25 de Abril )  e que quase  se pode dizer ser o pão nosso de cada dia. Que a pseudo justiça deste depauperado país tarde anos em levá-los ao tribunal , é um facto adquirido. E... enquanto o pau vai e vem, essa canalha vai fazendo anos até que um dia morrem e inteligentemente os herdeiros ficam senhores de fortunas fabulosas, enquanto os verdadeiros burlões/gatunos,   como já não estão cá...
   Pois, nada a fazer. Só há uma coisa que me faz um confusão dos diabos, é isto :Onde foram parar os milhões que roubaram  ?! Que raio de diligências que efectuaram que não conseguem localizar o "cacau" ?  Particularmente  não acredito que os responsáveis não sejam competentes ! Ná...Pois se passados alguns dias, por uma simples multa de 50 euros  porque não se pagou o parqueamento ou coisa do género, vem logo um agente da autoridade ( convenientemente armado ) com pompa e circunstância , bater-nos à porta por vezes até com mandado de captura!...  Ná ! Aí anda  outra música com que nos querem fazer dançar!  Se de facto houvesse a tal justiça, não acontecia tanta pulhice, tanta vigarice,   a modos que a passar impunemente aos olhos de quem os devia ter bem abertos.
  Olhem por exemplo o que se passa com os "lares da 3ª idade " que por aí proliferam clandestinamente  sem que ninguém ( os ditos responsáveis ) não lhes ponha cobro mas DE FORMA BASTANTE DURA. É bem verdade que , por vezes, delegados da Segurança Social lhes aparecem de surpresa e lhes encerram as portas. Mas as respectivas proprietárias, com a maior desfaçatez viram as costas e mais adiante abrem outros pardieiros do género sacando o  mais que podem aos pobres idosos  -  muitas vezes mal  tratados até fisicamente  - que por ali vegetam, na maioria abandonados pelos próprios familiares que no entanto  não se fizeram esquisitos em gozarem os espólio que eles cá deixam. E não julguem  que não sei o que estou a dizer!, já por isso passei quando os meus sogros acabaram os seus dias  num lar de idosos. Tiveram ainda assim alguma sorte pois a instituição que os acolheu, pertença da Misericórdia de Faro, é  daquelas que oferecem o máximo de condições desejáveis. Ali passaram os últimos dias da sua vida até ao seu falecimento.   E contudo até que podiam ter passado esses dias no conforto do se lar  (  porque o tinham ) merecendo os cuidados das suas filhas saudáveis e capazes. Mas como eram pobres... No entanto, abandonando o próprio lar e o marido, uma delas  fez questão de estar permanentemente junto de uma tia com o argumento  "para ela não ficar sozinha " o que não corresponde à verdade já que essa tia, perfeitamente válida, possuía uma empregada, noite e dia , a quem pagava generosamente.  Pois... mas essa tia é dona de uma razoável fortuna. Percebe-se...
  A  minha falecida mãe   ( Deus a guarde ) foi vítima de um AVC, e após várias visitas a Alcoitão, o resultado foi negativo. Ficou parcialmente  impossibilitada  perdendo, inclusive, o dom da fala o que é o pior que pode acontecer a quem sofre aquela fatalidade.  Insistiu que queria ir para um lar.  À volta da nossa residência no Estoril e até Lisboa procurei em tudo quanto era sítio, e o que fui vendo ,e do que fui testemunha, só me causava repulsa.  Assim, e contra sua vontade, decidi traze-la para minha casa de Faro para o conforto e ternura  da família até que Deus a chamou.
  Até então nunca tinha conhecido o quanto sofre um idoso que não tem família ou que a tendo é como se não tivesse.
  Um dia tive a sorte de conhecer esse extraordinário Senhor que foi o Rev.Padre Dr.Júlio Tropa Mendes, que infelizmente já nos deixou para sempre. Acompanhei um pouco a sua obra, principalmente o Lar de Idosos de Santa Bárbara de Nexe bem como  o Infantário De Estoi, e tive oportunidade de observar o que é a verdadeira cruzada de  tratar um idoso com o maior carinho e amor e, falando com alguns deles, ouvi-lhes  em palavras comovidas o quanto estavam gratos pela forma como ali eram tratados. Só assim se compreende que muitos tivessem atingido a proveta idade dos noventa e tal anos. E todos tratados do mesmo modo, fossem pobres ou de posses um pouco melhores.
  Eu pergunto :- porque não se exerce uma maior  e mais rigorosa fiscalização sobre esses "túmulos"  onde  agonizam tantos seres humanos  que um dia tão úteis e tanto contribuíram para esta ingrata sociedade que  sem qualquer piedade os vota ao ostracismo ? Porque não se exige a mais elementar preparação para cuidar da velhice ? - Porquê se fecha os olhos com indiferença aos nossos idosos ?
  Julgam os nossos responsáveis que a reforma  ( muitas vezes miserável )  é a solução ? Pois tomem em consideração : " A reforma não passa de "A Morte Subsidiada"...
  Pois há quem  - em nome da misericórdia - leve uma vida de grandes senhores.
  Vocês sabem a quem me refiro...

José Clarel