terça-feira, 7 de junho de 2016

PÁGINAS SOLTAS ______________________________ CIGARRO, MEU VELHO AMIGO ! Cigarro, meu velho e indesejável amigo … Recordas a primeira vez em que, abusivamente, penetraste traiçoeira e indesejavelmente nos meus pobres e ignorantes pulmões contra a qual nem as naturais defesas - brônquios e bronquíolos - conseguiram travar-te ? Lembras-te ? Lembras-te como e quando isso foi pela primeira vez ? Eu quase me desfiz em tosse e vómitos arrepiantes que me fizeram morrer de incontrolável nojo, lembras-te ? Lembras-te como te libertaste dessa vil tentativa de, gradualmente, não te insinuares na minha indefesa vontade, antes pelo contrário, e como conseguiste destruir todas as minhas pobres defesas, e a minha resistência ? Lembras-te como gradualmente também foste acumulando no meu sangue e rede pulmonar o nefasto poder da tua perversa intenção ? Lembras-te como, desse modo, , foste destruindo todas as possibilidades de recuar, de desistir dessa malvada senha criminosa ? Lembras-te como e desse modo, por causa da tua ação, que por três vezes ao longo da minha vida estiva às portas da morte de que só me livrei, e quase ressuscitei, graças à ajuda oportuna da tua figadal inimiga, a ciência ?, e porque, imagina só, já não fumava há 23 anos sem tentativas de recomeçar, melhor, resistir aos teus peçonhentos e traiçoeiros ataques ? Pois ! O que não sabes é qual foi sistemas que usei para, definitivamente, te enviar ao limbo… Mas vou-te contar para que não julgues que és intocável, e indestrutível ! E começou assim : Um dia, melhor, uma noite, sentado confortavelmente num sofá da minha sala a ver televisão, com o meu filho Nuno sentado noutro junto a mim, puxei dum irmão teu, tal como fazia desde tenros anos, e depois de o acender deliciei-me (?) com umas grandes baforadas de prazer, o pior foi que a folhas tantas, como já me acontecera noutras ocasiões, fui atacado por violento ataque de tosse que me levou a exclamar : - Diabos levem a esta porcaria ! O Nuno, lá do seu canto replicou : - Pois será uma grande porcaria mas o pai não larga isso de vez ! ( Devo, em abono da verdade, referir que o meu filho nunca foi adepto de qualquer vício, isto numa altura em que a juventude andava a sofrer o efeito de todo género de droga, mas ao qual a ele nunca ligou, graças a Deus… ) Ao seu comentário, feito com um pouco de ironia, respondi de imediato: “ Não deixo ? .é só eu querer “ , afirmei com bastante veemência. Ao que ele logo contrapôs . “ – Gostava de ver” … Respondi , “ à sim, queres apostar ? Logo ele disse,” quero apostar mesmo. E a que é que apostamos “, disse em ar de desafio. Não me intimidei e contra a sua espectativa atirei-lhe de chofre : “ Agora, já aqui, garanto sobre minha palavra, apago este cigarro e nunca mais fumo. E tu, em contrapartida, juras que não deixas de estudar música “! “ Tá feito, afirmou “. Eu - tal como tinha garantido – nunca mais, na minha vida , voltei a pôr um cigarro na boca, e ele, ao invés, seis meses depois desistiu do conservatório onde na altura estava bem classificado. Tinha uma habilidade nata para ler e tocar música, a tal ponto que um dia provoquei-o a tocar a marcha nupcial, aquando o casamento da tia, no enorme Órgão da Sé de Faro frente ao qual sentado, não chegava com os pés ao solo, merecendo até, os aplausos de Monsenhor Dr.Padre Henrique,que curiosamente, era um enorme músico e que foi o responsável pela exibição do Nuno pois foi ele, na qualidade de oficiante e Prior da Sé ter aquiescido a minha solicitação para que o meu filho ali atuasse. Foi, de facto, uma grande perda. Na nossa família desde o bisavô todos fora músicos e bons músicos, e o meu pai então foi o melhor que apareceu em Cascais,. Aida tenho em meu poder uma carta que o meu pai endereçou ao Nuno depois de ouvir uma gravação com uma grande sua atuação, que o levou a afirmar que o seu neto era na realidade bastante bom, o que não era de admirar pois tinha a quem sair … - e FOI ASSIM… Só que… Percebeste a moral da história ?, não ? eu logo vi ! Estúpido isto foi para te provar que, para te combater e eliminar-te de vez não são necessários medicamentos, rezas ou mézinhas, basta apenas uma coisa : FORÇA DE VONTADE ! Apenas isso ! É porque “ se querer é poder “, nada nem ninguém é superior à vontade do homem ! -Estás pior que danado, bem o sinto, mas não te amofines lembra-te do mal que tens feito à humanidade desde que surgiste do mundo das trevas, da morte, do infinito abismo… Andava louco da vida para te dizer isto mesmo : o quanto me enojas e repugnas, basta apenas o teu cheiro! Tens vindo a tornar essa humanidade tua subserviente escrava, e tu, pouco a pouco, com a ajuda desse outro monstro que dá pelo nome amaldiçoado de CANCRO,. vens vindo sorrateira e traiçoeiramente - como é teu timbre - destruindo-nos sem qualquer sombra de piedade. Entre muitos milhões, levaste o meu pai que ainda tinha alguns anos para viver ; levaste um grande amigo, um médico de irrefutável valor de quem a humanidade tinha muito a esperar e que, sabendo muito bem que estava a cavar a sua sepultura, não conseguiu, contudo, fugir à tua nefasta influência. E como ele muitos mais que eu conheci. Os hospitais oncológicos estão repletos de vítimas tuas. O sofrimento que tens vindo a espalhar por todo o mundo, é incalculável. À tua custa - também é bom referir – vivem milhares de burlões e vigaristas que, com a promessa de que os produtos que apresentam eliminam definitivamente o vício do tabaco. Mas não põem um cigarro na boca, é o pões ! Cigarro amigo ( amigo o caraças ! ) peço desculpa de ter-me livrado das tuas garras maléficas , de não ser MAIS UM para a tua conta, e por isso peço me desculpes também estar com os meus saudáveis 85 anos de vida e só lamentar o tempo que me fizeste perder poluindo os meus pobres pulmões. Mesmo assim quero-te dizer que te foste-te embora mas deixaste imbatível rasto da tua passagem perniciosa. Já lá vão 30 anos que te sepultei para sempre mas ficam sempre alguns desagradáveis resíduos, recordações da tua presença maldita. Mas, e à guisa de despedida, quero dizer-te uma coisa, que tu sabes muito bem e que te dana grandemente : - duas pneumonias no espaço de dois anos das quais me livrei, segundo as palavras da grande pneumologista Isabel Ruivo – a quem agradeço os seus grandes cuidados - que me tratou “A sua sorte é o facto de ter deixado de fumar já há alguns anos”! E afinal não foi muito difícil : Com a ajuda de Deus bastou apenas - uma grande força de vontade. Repito : O homem quando quer….. José Clarel Maio - 2016

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