quarta-feira, 3 de setembro de 2014



à medida que a cocaína se espalhava a grande velocidade pela alta burguesia de Lisboa, do Porto e da linha de Cascais, fazendo das sobremesas snifadas ao jantar manifestações de sofisticação. Gente de apelidos sólidos com propensão para a arte, ligadas à televisão e ao cinema assumia num circulo fechado de confiança a sua enorme vontade de se portar mal, celebrando um entusiamo eufórico pela decadência. “ Para qualquer das pessoas presentes nesse jantar, a barreira moral já tinha sido ultrapassada há muito tempo “. Diz Madalena ( nome falso )que também lá esteve. Madalena era na altura uma jovem estudante de cinema, com 28 anos, e estava deslumbrada. Filha de um aristocrata muito popular em Portugal, caiu de cabeça no discreto submundo dos prazeres da alta sociedade. “ A infidelidade, a promiscuidade, o excesso de álcool e de drogas, essas coisas tornaram-se banais. Muitas dessas senhoras usam a cocaína para atraírem rapazes novos e poderem levá-los para a cama. Acham que só se conseguem divertir, assim que tudo o resto é um tédio.
     
     A TRANGRESSÃO ACELERADA  de  Madalena fê-la entrar em colapso depois de ter vivido como estudante de cinema em Nova Iorque, onde descambou do cheiro das linhas de coca nas penthouses para o fundo de crack nas ruas de Bronx, passou por várias tentativas falhadas de recuperação em clínicas particulares, até que há catorze anos se juntou ao programa dos Narcóticos Anónimos e largou de vez o circuito das drogas. Já sem ela as,  festas continuam.
    Uma elite cada vez mais vasta na transgressão acelerada o único modo de diversão tendo na cocaína um combustível que abastece de dopamina e noradrenalina o centro de prazer do cérebro. O efeito é intelectualmente estimulante, socialmente  desinibidor e aumenta a libido.
 “Há relatos de orgasmos espontâneos”, diz o médico Joaquim Margalho Carrilho, presidente da Associação Portuguesa de Medicina de Adição “. E não dá ressaca física, ao contrário da heroína. Por isso é tão apetecível.
  A diabolização pública da heroína ( a droga da degradação física e dos marginais andrajosos ) , a ocupação militar do Afeganistão ( desregulando a ocupação mundial da papoila de ópio ) e a política agressiva dos carteis sul americanos quanto à exportação para a Europa, encontrando sempre meios de pôr de pé novas plantações de coca, estão a alterar os hábitos de consumo em Portugal- Enquanto os jovens mais pobres se atiram diretamente ao crack, fumando em cachimbos de água misturas perigosas de cocaína e amoníaco, as classes altas andam fascinadas com as linhas  brancas e com as notas enroladas, importando a conduta dos yuppies de Wall Street e da City de Londres, esbanjando dinheiro ao mesmo ritmo com que o conseguem ganhar. O universo de músicos, estilistas, modelos, e jornalistas publicitários portugueses que se iniciaram mais cedo nesse ritual, ainda nos anos 80, foi abrindo as portas a gestores, profissionais de marketing, arquitetos, advogados, políticos, empresários.
   Os números oficiais enganam. O último relatório do Instituto da Droga e da Toxicodependência  (IDT) revela que, dos utentes que foram pela primeira vez a uma consulta da rede pública de tratamento em 2004,  32% diziam ser dependentes de cocaína e 7% deles consumiam-na em exclusivo ( sem misturar com heroína ).

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