quarta-feira, 20 de agosto de 2014



a depois, espasmos violentos percorriam-no da cabeça aos pés, como se estivesse ligado uma corrente elétrica. Arrepios sucessivos pareciam ser provocados por um pedaço de gelo que percorria a espinha. Arrancou um lençol da cama e envolveu-se nele. Tremia como um motor em acelerações. Os dentes assemelhavam-se a castanholas. Estava completamente coberto de suor. Com bastante custo deu algumas voltas ao quarto. Um muco aquoso saia pelos olhos e pelo nariz.
 « Água quente !» - gritava em delírio,  «estão a deitar água quente na minha boca !»
Abria desmesuradamente a boca e apontava lá para dentro. Teve uma convulsão  e
Vomitou. Depois caiu redondo no chão.
  Assim o encontraram e arrastaram até à cama onde o deitaram e taparam. Mergulhara num sono que iria durar várias horas.
  Vinte horas passadas sobre a última injeção, acordou e entrou numa fase ainda mais crítica. Gritava furioso,  «que precisava da nova dose » , e por várias vezes teve de ser impedido de sair, como um louco, porta fora.
  Na realidade estava perto da loucura. No meio do seu delírio atirou-se para o chão rolando de um lado para outro. Os braços apertavam com força o peito. Durante cinco minutos bateu com a cabeça na parede suplicando que lhe dessem , ao menos a cheirar, um pouco de heroína. O muco continuava a cair dos olhos e do nariz. O corpo estava numa lástima, com um frio quase cadavérico.
 A partir desse momento entrava numa das fases mais terríveis. Parecia possuir dentro de si um monstro. O estômago saltou com força e vomitou uma mistura compacta e escura envolvida em laivos de sangue. Sentia-se impossibilitado de falar e tentava desesperadamente evitar as contrações do corpo… Os espasmos tinham sido tão violentos que não havia já nenhum orifício do seu corpo que não sangrasse, incluídos os olhos. “
    Já não voltei a ouvir qualquer outro relato sobre esses acontecimentos ao meu amigo.
   Após mais uma tentativa falhada pra uma cura efetiva que durara cerca de dois anos, em que intervieram os pais e a esposa, pois entretanto casara, voltou de novo ao martírio da droga. Mas por pouco tempo pois em mais uma sessão de auto-  injeção adormeceu para todo o sempre. Fora assassinado por um traficante sem escrúpulos que misturara pó de cimento na “dose” para ter mais peso…
  Um “ corte “ fatal para o meu pobre  amigo.
   A simples ideia de angariadores que andam pelas ruas, que esperam à porta de fábricas e escolas para poderem habituar jovens a viciados é inconcebível.
  De início essa situação nova intimida-os. Depois são eles próprios que, seduzidos pela possibilidade de contatarem com um drogado e conhecerem o seu mundo, os procuram. A gente nova sente nesse passo  UMA ESPÉCIE DE EMANCIPAÇÃO E DE ENTRADA NO GRANDE MUNDO DOS ADULTOS  -  toxicodependentes, claro. E quando se tornam também escravos do vício, não olham a meios para conseguirem a sua dose sem que isso lhes custe um centavo. E então procedem e então procedem ao chamado “ corte “ do produto que, por sua vez, já chegou bastante adulterado à sua mão. É uma das piores situações que ocorre no mundo da droga. Por isso as grandes organizações mundiais que traficam  a droga, antes do pagamento do produto verificam primeiramente o grau de pureza do que adquirem . E ai de quem os tenta enganar !
                                                                 - 5 -

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